Podes conferir a crítica traduzida na íntegra em "Notícia Completa", bem como o vídeo que a acompanha.
Obrigado, Oclumência!
Crítica da Veja
"Depois de sete livros e cinco filmes, é desculpável que se tenha a sensação de que tudo o que se poderia dizer sobre Harry Potter já foi dito. E mais do que uma vez. Eis então que algo inesperado acontece: com apenas alguns ajustes, Harry Potter e o Príncipe Misterioso (Harry Potter and the Half-Blood Prince, Inglaterra/Estados Unidos, 2009), que estreia no nosso país nesta quinta-feira, consegue fazer com que algo tão familiar pareça uma novidade, diferente e mais instigante do que em qualquer das aventuras anteriores – em filme ou em livro. O sexto episódio da série é aquele em que Albus Dumbledore (Michael Gambon), director da escola de Hogwarts, obrigará Harry (Daniel Radcliffe) a mergulhar nas várias memórias sobre o vilão Voldemort que, no decorrer de anos, ele coleccionou em frascos cristalinos. As lembranças, porém, não são nada menos que turvas: elas mostram como Voldemort, mesmo quando ainda se chamava Tom Riddle e era um menino órfão e desprezado, já emitia sinais inequívocos de ameaça – que o próprio Dumbledore subestimou. E revelam também que, já poderoso, Voldemort encontrou uma maneira indescritivelmente depravada de se preservar da morte. O empuxo da história, portanto, é lúgubre e incómodo. E são essas as características que David Yates, numa evolução inqualificável desde o episódio anterior, que também dirigiu, trata de acentuar, até que elas contagiem também os momentos ligeiros do enredo – momentos de calma nos quais a desordem nunca demora a intrometer-se.
Este é de longe o filme mais sombrio, técnico e lúgebre da série. É o filme que mais sucesso tem em fazer esta transição que eles estão a tentar já há algum tempo para um tema mais adulto, um clima mais adulto, e o que há de mais importante, o filme consegue assemelhar-se ao O Senhor dos Anéis, e isso é um tremendo elogio.
O surpreendente no efeito obtido por Yates é a simplicidade dos meios que ele utilizou: primeiro, uma paleta de cores fechada, que privilegia o chumbo e torna os tons vivos, quando aparecem, dramáticos e cheios de prenúncios; uma faxina nos sets, para fazer da escola de feiticeiros Hogwarts um ambiente medieval e austero; depois, enquadramentos muito profundos, que, por colocarem boa distância entre o primeiro e o último planos, sugerem que há coisas que não se podem discernir nem desvendar; e, por fim, a ênfase no rosto dos actores. Em especial dos bons actores, como o irlandês Gambon, um intérprete magnífico, que enche Dumbledore de gravidade, e o inglês Jim Broadbent. O papel de Broadbent, o do professor Horace Slughorn, é um desses que imploram para que um erro seja cometido: Slughorn é fútil, deslumbrado e tem um fraco por alunos que desfrutem algum tipo de celebridade – como Harry. No livro de J.K. Rowling, ele é retratado da forma fácil, como uma figura ridícula. Actor e director, porém, avançam ao fazer dele um homem trágico – são as almas simples e vulneráveis como Slughorn que o mal vampiriza e das quais se alimenta para persistir.
Crítica da Veja
"Depois de sete livros e cinco filmes, é desculpável que se tenha a sensação de que tudo o que se poderia dizer sobre Harry Potter já foi dito. E mais do que uma vez. Eis então que algo inesperado acontece: com apenas alguns ajustes, Harry Potter e o Príncipe Misterioso (Harry Potter and the Half-Blood Prince, Inglaterra/Estados Unidos, 2009), que estreia no nosso país nesta quinta-feira, consegue fazer com que algo tão familiar pareça uma novidade, diferente e mais instigante do que em qualquer das aventuras anteriores – em filme ou em livro. O sexto episódio da série é aquele em que Albus Dumbledore (Michael Gambon), director da escola de Hogwarts, obrigará Harry (Daniel Radcliffe) a mergulhar nas várias memórias sobre o vilão Voldemort que, no decorrer de anos, ele coleccionou em frascos cristalinos. As lembranças, porém, não são nada menos que turvas: elas mostram como Voldemort, mesmo quando ainda se chamava Tom Riddle e era um menino órfão e desprezado, já emitia sinais inequívocos de ameaça – que o próprio Dumbledore subestimou. E revelam também que, já poderoso, Voldemort encontrou uma maneira indescritivelmente depravada de se preservar da morte. O empuxo da história, portanto, é lúgubre e incómodo. E são essas as características que David Yates, numa evolução inqualificável desde o episódio anterior, que também dirigiu, trata de acentuar, até que elas contagiem também os momentos ligeiros do enredo – momentos de calma nos quais a desordem nunca demora a intrometer-se.
Este é de longe o filme mais sombrio, técnico e lúgebre da série. É o filme que mais sucesso tem em fazer esta transição que eles estão a tentar já há algum tempo para um tema mais adulto, um clima mais adulto, e o que há de mais importante, o filme consegue assemelhar-se ao O Senhor dos Anéis, e isso é um tremendo elogio.
O surpreendente no efeito obtido por Yates é a simplicidade dos meios que ele utilizou: primeiro, uma paleta de cores fechada, que privilegia o chumbo e torna os tons vivos, quando aparecem, dramáticos e cheios de prenúncios; uma faxina nos sets, para fazer da escola de feiticeiros Hogwarts um ambiente medieval e austero; depois, enquadramentos muito profundos, que, por colocarem boa distância entre o primeiro e o último planos, sugerem que há coisas que não se podem discernir nem desvendar; e, por fim, a ênfase no rosto dos actores. Em especial dos bons actores, como o irlandês Gambon, um intérprete magnífico, que enche Dumbledore de gravidade, e o inglês Jim Broadbent. O papel de Broadbent, o do professor Horace Slughorn, é um desses que imploram para que um erro seja cometido: Slughorn é fútil, deslumbrado e tem um fraco por alunos que desfrutem algum tipo de celebridade – como Harry. No livro de J.K. Rowling, ele é retratado da forma fácil, como uma figura ridícula. Actor e director, porém, avançam ao fazer dele um homem trágico – são as almas simples e vulneráveis como Slughorn que o mal vampiriza e das quais se alimenta para persistir.
David Yates já está a filmar o o último episódio de Harry Potter (que, por ser muito longo, será dividido em duas partes). Se prosseguir neste aperfeiçoamento, poderá encerrar a série numa chave de facto memorável – o que Príncipe Misterioso já passa bastante perto de ser. Nem tudo é perfeito, claro. Num filme tão dominado por Gambon e Broadbent, os limites dramáticos de Daniel Radcliffe ficam, se possível, ainda mais evidentes. Mas isso, sim, já é notícia antiga."
